segunda-feira, 7 de junho de 2010

Agradecimento


Há conceitos que aplicamos no quotidiano de forma linear, outros que aplicamos automaticamente, outros que pensamos e não usamos realmente, outros demasiado supérfluos para serem falados e outros demasiado ousados para serem completamente compreendidos. E existe Ela. Ela é um conceito demasiado complexo para ser entendido por meras palavras. É um fluxo de tudo o que é, de tudo o que constrói, de tudo o que pensa, de tudo o que teme, de tudo o que dá. É um fluxo dinâmico onde olhares, palavras e sorrisos se misturam numa harmonia raramente vista e raramente pensada. Ela respira o ar que negativistas expulsam, transforma-o numa brisa encantadora que dá vida aos desencantados.

Não é prefeita: “há beleza na imperfeição”. É uma máquina de palavras e expressões alucinantes que nos consomem por momentos, e ao mesmo tempo uma máquina de silêncios e olhares realmente confortáveis. Ela é um conceito que jamais conseguirei explicar, porque é um conceito que muitas vezes nem entendo. Mas é um conceito que sinto e que sei que me (nos) faz feliz.

Ela não é abstracto mas também não é concreto. Ela não é óbvio mas também não é o complexo. Ela não é desprendimento mas também não é racionalismo. Ela é sonhadora, e como sonhadora tem medo perder. Mas é lutadora, e como lutadora luta contra esse medo. Ela é uma actriz única no palco da vida, e dá ao Mundo uma noção central de existência. Ela não vive por acaso, nem faz do acaso a sua rotina. Ela corrompe os limites do óbvio, e consome-os até tornar intensos os momentos que com Ela vivemos. Ela é definitivamente surpresa. É definitivamente sorriso, lágrimas e entrega.
Ela acorda e vive na intensidade das pequenas coisas que tornam o dia tão colorido, tão próximo e tão nosso. Ela cumprimenta inconscientemente dia após dia a Deneuve, a Zeta-Jones, a Kidman, a Glenn Close, a Maggie Smith, e partilha com elas todo o seu dia, todas as suas expertiências, todos os seus medos, todas as suas aspirações. Com Ela diria: quantas grandes artistas já actuaram no centro do seu quarto? E quantas personagens já ela foi no centro do seu quarto? E quantas discussões terá tido com as suas artistas a respeito das suas personagens e das suas imensas representações?

E é critica o suficiente para saber que a crítica é dinâmica. Por isso pede opinião a Eça de Queiroz, Baz Luhrmann, ao Paulo de Carvalho, ao Platão, aos Jigsaw, ao Mark Herman, à Meaghan Smith, ao Scorsese, à Sónia, ao Tom Hanks, ao Burton, aos goldfrapp, ao Nietzche ou à simples insónia que numa qualquer noite lhe impõe um diálogo. E mesmo Ela sabendo que é um pouco de tudo isso, Ela sabe que todos os dias se enriquece partilhando todos esses maravilhosos diálogos, todas essas maravilhosas críticas, todas essas maravilhosas viagens ao seu Mundo interior.

Da sua guitarra emanam sons que Ela sabe em que pessoas da sua vida encaixam. E Ela consumida pela música da sua vida encontra em cada sentimento e em cada partilha a imensa banda sonora do filme da sua vida, da narrativa do seu Mundo.
Ela é uma absoluta Romântica, e por isso é inconstante. Mas sabe no fundo que como o amanhã é sempre tarde de mais: ADORO-TE MÃE, ADORO-TE PAI, ADORO-VOS AMIGOS, ADORO-VOS SORRISOS, ADORO-VOS SENTIMENTOS, ADORO-TE MUNDO, ADORO-TE VIDA !!! Na sua inconstância ela encontra respostas, e nas suas respostas ela é feliz. Também para mim o amanhã é sempre tarde de mais, por isso: ADORO-TE, ADORO-TE e ADORO-TE !!
E, porra, que se lixe o resto: ABSOLUTAMENTE ARREBATADOR!
….
Ainda que nem sempre entenda aquilo que és enquanto conceito, sinto que fazemos parte um do outro, e que por essa vida fora quando olharmos para o lado estaremos um ao lado do outro, amigos para sempre, confidentes para sempre.
“… Et, même qui La Rose cest important, moi et toi savoir que l´important est que nous existons, et que je t´adore comme tu m´adore” (tentei).

domingo, 6 de junho de 2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

…nem só de Rei e Rainha se faz um jogo de xadrez!


O fim da bipolarização do Mundo em nada foi sinónimo de pacificação, de rejeição da guerra e da generalização Mundial de direitos sociais. Foi sim sinónimo de unipolarização do Mundo, sob a égide do imperialismo global. O desaparecimento da potência Soviética fez, a partir de 90, surgir os EUA como a única grande potência económica e militar. Contudo, nos nossos dias uma nova potência emerge, a China. O facto de uma nova grande potência surgir na geopolítica mundial, não faz com que algo mude no Mundo, não é sequer factor de alívio e de esperança para os trabalhadores e para o povo. A ascensão Chinesa é, antes de mais, um motivo de preocupação. Apesar de uma imagem renovada e “marketingzada “, o imperialismo global continua a ser a base de entendimento global e de todo e qualquer equilíbrio de forças…

...mas o Mundo é claro como a clarividência de um charco de água suja!

Os países menos desenvolvidos são sempre quem paga a factura mais alta, sendo brutalmente excluídos do processo de globalização. A Tríade mais a China, são hegemónicos: detém todo o poderio económico, mobilizam e gerem recursos e fluxos de todos os tipos, detém uma superioridade técnica e um poderio económico e político brutal, servindo-se da guerra infinita, da marginalização e aproveitamento dos países menos desenvolvidos e, obviamente, do planeta. Pensar-se nas Nações Unidas como um real factor de equilibro de forças? Impossível… O conselho de segurança não deixa e sabemos precisamente porque…

A globalização reforça a primazia Norte Americana (como sempre o fez). Ao mesmo tempo que favorece o apogeu Chinês. Mas como nem só de Rei e Rainha se faz um jogo de xadrez, o império deu um novo salto. Utiliza novos bispos e torres no imperialismo global. Essenciais à renovação de imagem e à desfiguração que o capitalismo quer impor na cabeça dos cidadãos e da opinião publica. Esses bispos e torres, os chamados novos países industrializados ou semiperiferias são, nos nossos dias, peças centrais do ilusionismo imperialista. Sob a capa do (re)equilíbrio de forças, da democratização do Mundo, e da eficácia do modelo económico globalizante, os países emergentes servem os mesmos interesses das potências: rebaixam-se sempre perante os interesses político e económicos (por exemplo as multinacionais Norte Americanas no México); subjugam-se sempre perante as ofensivas militares (por exemplo a complacência perante a guerra no Iraque, no Afeganistão ou na Palestina); assumem sempre uma posição subalterna em questões ambientais (por exemplo cimeira de Copenhaga); … E portanto sob a capa democratizadora, os países emergentes apenas legitimam o imperialismo global, porque a verdade é que o imperialismo não é democratizável!

São regiões geopoliticamente estratégicas: Ásia Orienta e Sudoeste Asiático; América Latina; Magrebe. Países tidos como exemplos, onde os direitos humanos, o trabalho infantil, a pobreza ou as desigualdades sociais são problemas inultrapassáveis. Conhecemo-los (e certamente não será por acaso) com nomes de animais ferozes e ofensivos: os 4 Dragões Asiáticos (Coreia do Sul, Taiqan, Hong Kong e Japão) ou como os Tigres do Oriente (Malásia, Tailandia, Filipinas e Indonésia)… Próximos da China e do Japão, assumindo um papel geoestratégico de enorme importância. Na América Latina conhecemo-los com mais profundidade: A Argentina, o México, o Brasil… A própria “política de bloco”, com o exemplo concreto da NAFTA, é bem elucidativo do tipo de alianças que se fazem e com que fins. Mas não pensemos que os EUA só se impõe ao país que em 1982 se declarava insolvente e foi “salvo” pelos EUA (México), ou da 10ª economia Mundial que Obama tanto elogia (Brasil) ou do fiel aliado (Argentina). Detém outras influências igualmente importantes como a Colômbia ou o Peru. A região do Magrebe não é imune. O império sabe perfeitamente onde está o seu oxigénio, o petróleo. É por isso que a presença dos EUA, da UE e até da China na Argélia, na Líbia, em Marrocos na Mauritânia ou na Tunísia é tão relevante.

João Nuno Mineiro

quinta-feira, 27 de maio de 2010

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Jose Caroso Pires, "O Delfim"


José Cardoso Pires, com toda a sua complexidade e com toda a sua beleza é um caminho estranhamento rico e inovador na literatura Portuguesa, vale a pena descobri-lo...



«Só agora, dezoito horas catorze minutos, chegam os jornais da tarde, e faço votos que com notícias de bom tempo. Oxalá. Para honra e glória do melhor ganso da época, é indispensável que a criadita me traga um bom Diário de Lisboa ou um bom Diário Popular que não me falem de chuva nem vento forte e ainda menos de trovoada.
(…)
Estendo-me na cama a ler o jornal.
(…)
Este, em particular, vem exausto. Mensageiro maltratado mas convencido (em artigos de fundo e notas do dia) do seu Valiosíssimo Papel de Órgão de Informação nas Estruturas Nacionais, chegou à Gafeira muito composto de bom senso e com a autoridade de ter preenchido as vinte e quatro páginas que lhe competem. Chegou cansado; sem voz, pode dizer-se. Abre-se e pouco adianta, a não ser para os desconfiados leitores das entrelinhas. Mas, vá lá, mal ou bem sempre faz um prometedor boletim meteorológico. Esperemos que não falhe. Que, ao menos, não seja tão desastrado como certas previsões da NASA – lembro-me eu, deparando com a fotografia de Edwin Aldrin a sorrir a duas colunas na primeira página.
UM LAVRADOR FESTEJOU O NASCIMENTO DE UM FILHO VARÃO
Beja, 30 – Mais de 500 convidados festejaram no Monte de Santa Eulália, propriedade do Sr. Patrício Melchior, o nascimento do primeiro filho varão daquele lavrador.
Consumiram-se, entre outras iguarias, doze perus, vinte e quatro cabritos, quinze leitões, trinta e um frangos e cem quilos de borrego. Beberam-se cem litros de vinho, quatrocentas cervejas, duzentas garrafas de whisky…
… e isto, parecendo que não, é um desafio ao sorriso de Edwin Aldrin. Ri-te cosmonauta inacessível, das vitórias que se ganham cá em baixo, e não te espantes. Conheço, meã culpa, vários cidadãos de lavoura-e-cabaré capazes de pensar como o nosso lavrador e, aqui entre nós, nem reparo. Sei como é fundo neles, e constante, e magoado, o sonho de fazerem um homem à sua maneira, ensinando-lhe o mundo e mulheres. Desejo-lhes, portanto: Salute ed figli maschi – que é como brindam (diz-se) os napolitanos legítimos.
Edwin Aldrin encara-me: Com os seus lábios brancos de americano engarrafado em aço. Está cheio de guerra e de publicidade, mas é um cosmonauta – nunca esquecer. É um homem confiante nos milagres que os outros homens vão descobrindo porque se põem à prova neles, e nessa qualidade merecer tudo, quer se chame Edwin, Gagarine ou tenha o nome de código de Major Alfa Zero.
(…)
Um homem que confia, um cosmonauta, leva fios invisíveis de humanidade em esfuziante propulsão. Com ele viaja o nosso velho universo – com lábios assim tão gelados e com escafandros tão tenebrosos. Sinceramente. Falo com a mão na consciência, porque, modéstia à parte, muitos dos meus avós portugueses também foram bons cientistas de descobrir mundo. Excelentes, não exagero.
(…)
Outra vez o sorriso branco: Enquanto as moscas passeiam, o caminhante do espaço permanece suspenso na primeira página do meu jornal. Se lhe descrevessem as fabulosas aventuras dos portugueses que foram, antes dele, navegadores do impossível, talvez não acreditasse.
Também, pouco adiantaria que acreditasse ou não. Acenar com os padrões dos nossos descobridores como resposta às façanhas de um cosmonauta é o argumento dos olvidados, e já enjoa. Estamos fartos de ouvir nos discursos de academia e nas crónicas oficiais. Aldrin nunca teria tempo para isso. Anda excessivamente atarefado com o futuro para poder dar atenção aos desprezados dos século XX…»

quinta-feira, 13 de maio de 2010

é sempre a mesma história que nos contam !!


O capitalismo está constantemente em reconversão: inova, transforma-se, encontra formas de se autolegitimar. E por muito que os discursos politicamente correctos nos venham falar de inevitabilidade não há escapatória: o problema de Portugal, da Europa e do Mundo é um problema ideológico. É um problema de sistema, de organização, de valores. Mais de dois mil anos de hegemonia de um modelo de dualismo social e de exploração (que na verdade nunca ninguém ousou quebrar) nunca oferecerem nada de realmente importante ao Mundo. E não nos desenganemos, porque o problema do PEC e da ditadura do défice é um problema estrutural, meramente estrutural. É um problema ideologicamente estrutural. Com a crise financeira o discurso liberalizador faliu e deu origem ao discurso regulador e moderador (também presente no discurso social cristão e social democrata do pós guerra). Para salvar o sistema os estados meterem rios de dinheiro nos mercados e nos bancos. E agora tapar esses buracos de salvação e os que já existiam criam-se os PECS e a ditadura de mercado. Em Portugal pagaremos (nós os mesmos de sempre) a factura dessa cangalhada elitista que destrói o país, o Mundo e que tem as costas quentes – o modelo neoliberal:


- Aumento para 21% da taxa do IVA.

- Aumento da taxa intermédia para 13 %.

- Aumento da taxa reduzida (a de bens essenciais e alimentares) para 6 %.

- Aumento de 1 % sobre os rendimentos.

- Congelamento salarial.

- Cortes nos subsídios sociais – subsidio de desemprego e RSI.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

...Fresco e riquíssimo.


""Aos quinze anos tive icterícia. A doença começou no Outono e acabou na Primavera. Quanto mais frio e escuro se tornava o ano velho, mais eu enfraquecia. Só melhorei com o novo ano. Janeiro foi um mês quente, e a minha mãe levou-me a cama para a varanda. Via o céu, o sol, as nuvens, e ouvia as crianças a brincarem no pátio. Em Fevereiro, num final de tarde, ouvi cantar um melro.

Vivíamos na Rua das Flores, no segundo andar de um grande prédio do começo do século. O meu primeiro passeio levou-me à Rua da Estação. Foi ali que, numa segunda-feira de Outubro, no caminho da escola para casa, vomitei. Havia já muitos dias que me sentia fraco, tão fraco como nunca antes na minha vida. Cada passo era um esforço. Quando subia escadas, na escola ou em casa, quase não me sustinha nas pernas. Também não me apetecia comer. Mesmo quando sentia fome e me sentava à mesa, depressa ficava com repugnância pela comida. De manhã acordava com a boca seca e com a sensação de que as minhas vísceras pesavam mais do que o costume e que estavam mal arrumadas dentro do corpo. Envergonhava-me de estar tão fraco. E envergonhei-me sobretudo quando vomitei. Também isso nunca me acontecera na vida. A boca encheu-se de vómito, tentei engolir, apertei os lábios com força e tapei a boca com a mão, mas aquilo jorrou através dos dedos. Depois apoiei-me à parede de uma casa, olhei o vomitado aos meus pés e saiu-me ainda uma aguadilha clara.

A mulher que me ajudou fê-lo de uma maneira quase brutal.

Agarrou-me o braço e conduziu-me pela – escura entrada do prédio para um pátio. Em cima havia estendais com roupas penduradas de janela a janela. No pátio havia madeira empilhada; numa oficina com a porta aberta chiava uma serra e voavam estilhas. Ao lado da porta do pátio havia uma torneira. A mulher abriu-a, lavou-me primeiro a mão e depois recolheu água na concha das mãos e atirou-a para o meu rosto. Enxuguei a cara com o lenço.

– Leva o outro! – Ao lado da torneira estavam dois baldes, ela agarrou num e encheu-o. Peguei no outro e enchi-o, e depois segui-a pela entrada. A mulher balançou muito os braços, a água caiu de chapa no passeio e arrastou o vomitado para o esgoto. Tirou-me o balde da mão e atirou outra chapada de água sobre o passeio.

Endireitou-se e viu que eu chorava. – Miúdo – disse, surpreendida –, miúdo. – Abraçou-me. Eu era pouco mais alto do que ela, senti os seus seios no meu peito, no aperto do abraço cheirei o meu mau hálito e o suor fresco dela e não soube o que fazer com os braços. Parei de chorar.

Perguntou-me onde morava, deixou os baldes na entrada e levou-me a casa. Corria ao meu lado, com a minha pasta da escola numa mão e a outra mão no meu braço. A Rua da Estação não é muito longe da Rua das Flores. Caminhava depressa, e com uma determinação que me tornou mais fácil acompanhá-la. Despediu-se diante da minha casa.

Naquele mesmo dia, a minha mãe chamou o médico, que me diagnosticou icterícia. Num momento qualquer falei daquela mulher à minha mãe. Não acredito que de outra maneira a tivesse visitado. Mas para a minha mãe era natural que, logo que eu pudesse, iria comprar com o meu dinheiro um ramo de flores, apresentar-me e agradecer-lhe. Por isso, num dia do final de Fevereiro dirigi-me à Rua da Estação.""

quarta-feira, 7 de abril de 2010

"à espera do fim..."

Um poema fantastico, uma melodia excepcional...

Insustentavelmente…

Por vez custa-nos no meio da desgraça pensar em responsáveis e responsabilidades. Mas sem a precisão dessa análise apenas estamos a dar frutos à inércia, à irresponsabilidade e não tirar conclusões que nos permitem atenuar novas desgraças, quiçá impedi-las. A catástrofe ambiental e social que neste momento atravessa o Brasil não pode passar em claro e merece uma reflexão. É certo que ninguém controla o clima, podemos agravá-lo ou tentar “normaliza-lo” mas a sua força é incontrolável.
Porém parece-me que os mais de uma centena de mortos no Brasil não são meramente fruto das fortes chuvadas… A esmagadora maioria das mortes são de favelas, das consideradas áreas de risco, onde o planeamento não existe, as construções são precárias e favorecem a acumulação das águas. A agravar a isto seguem-se os desmoronamentos.

Não seriam muitas destas mortes evitáveis com outro tipo de planeamento urbanístico e com outro tipo de políticas sociais? As mortes de todos estes pobres nas favelas são a consequência de um segregacionismo isolacionista que condena populações a condições de vida miseráveis em ambientes desestruturados que potenciam cheias e outros tipos de catástrofes.

A outra análise que me parece pertinente é a ineficácia deste modelo de globalização. Se a globalização fosse social, a resposta a catástrofes ambientais deste tipo seriam globais. Não seriam, como agora, meras migalhas para os estados ficarem bem na fotografia mas seriam respostas sérias. É impossível prever este tipo de situações, e uma globalização solidária passaria por os estados assumirem uma responsabilidade global e colectiva de resposta às catástrofes ambientais dos estados, dinamizando esforços reais e sérios.
Mas a globalização económica e resolver catástrofes naturais não é assim tão lucrativo.

Será comparável o dinheiro que os estados colocam no Brasil quando encontram uma oportunidade de mercado, com o dinheiro que colocam quando centenas morrem em catástrofes ambientais?

O neoliberalismo não responde às pessoas !

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Inversão de prioridade...


Lê-se no Público que os Estados Unidos um ano depois já não ajudam a economia. Afinal toda a pompa e circunstância da Cimeira de Londres foi mero ShowOff, com Obama a aparecer como uma mera imagem de marketing, que apesar de renovada não esconde a sua verdadeira face.
A verdade é que a cimeira do G20 só foi isso: imagem de marketing.
Os mais distraídos pensariam que tínhamos voltado ao Keynesianismo e às políticas “Roosveltianas”, mas não... Um ano após a cimeira do G20 a prioridade já não é a economia, já não são os bancos, a regulação, a injecção de dinheiro, ou o (falso) combate ao desemprego; a prioridade agora são as contas públicas e os défices.


Enquanto as prioridades mudavam impulsionadas pelos lobbies que usaram a cimeiro do G20 como uma máscara, o Mundo assistiu a consecutivos ataques aos direitos das pessoas. O desemprego prolifera, a precariedade generaliza-se, as privatizações surgem com a “solução possível”, os pobres são criminalizados, os apoios sociais reduzidos, os salários congelados, e até se pensa em negar ajuda a um país da zona euro.

Por muitos combates e vitórias que tenhamos tido a burguesia está sempre um passo à frente. Conseguiu em tempos de crise financeira e desconfiança no sistema capitalista refortalecer-se e ganhar um novo fôlego… Resistiremos, não sairá vitoriosa!!!


Razão tinham os milhares que ficaram à porta da cimeira...

João Mineiro
em, adeuslenine.blogspot.com

terça-feira, 23 de março de 2010

Poema em linha recta


(Com uma dedicatória muito especial artista...)

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."


Álvaro de Campos

quarta-feira, 17 de março de 2010

Socialismo e Direitos Humanos


Quando Marx olhou a sociedade e pensou uma forma de organização política, económica e social alternativa, fê-lo porque constatou que o homem vivia na miséria, fruto da exploração e da opressão a que o capitalismo o submetia. Essa preocupação humana foi condição essencial do seu pensamento, e a esquerda anti-capitalista moderna, não pode aceitar que em nome do socialismo se pratiquem verdadeiros atentados aos Direitos Humanos. Isso é paradoxal, porque socialismo e Direitos Humanos são conceitos quase siameses.

Cuba, um dos poucos Estados que ainda tem a ousadia de se auto-caracterizar socialista, faz uso de uma retórica anti-guerra, anti-imperialismo e pelos Direitos Humanos. Advoga toda essa malha discursiva com a teoria anti-império (legitima por si só, mas não legitimadora de tudo). A Esquerda anti-capitalista tem de perceber que existem precedentes, que para lá de um discurso floreado existe toda uma organização política que se afastou no ideário humanista que Marx protagonizou.

Em Cuba não existe liberdade de expressão, de associação e de crítica. É um facto incontornável. Em pleno século XXI, é inconcebível que um Estado se caracterize de Socialista e utilize os seus órgãos repressivos para prender e deter quem pensa de maneira diferente. O império faz isso com a teoria “pensamento único” de forma encapotada, e também ai a Esquerda tem uma palavra a dizer e um ponto de exclamação a acrescentar. Porque superioridade da Esquerda mede-se pelos seus valores.

Um partido de esquerda socialista tem de olhar para os cerca de duzentos presos políticos, para a morte de Tamayo (e a repressão pós morte), para a repressão sobre os movimentos feministas, para os desaparecimentos (presumivelmente mortes) dos líderes de oposição, para o exílio de Cubanos críticos, e para os milhares que morrem na travessia, e perceber que esse é um caminho por onde não queremos ir.

Sem direitos humanos não há alternativa socialista. Quando há uns tempos li o “Conta-me coisas de Cuba”, de Jesus Diaz percebi que a questão Cubana era mais complexa do que se pensa. O autor não é propriamente de fiar, mas a análise é séria. A história da personagem que ele cria podia ser a história de qualquer Cubano, oprimido no seu país que acabou perdido no mar entre dois países e duas realidades concepcionais…

É verdade que Cuba é segregada e que o seu povo é brutalmente desrespeitado. Que existe uma ofensiva brutal sobre a sua economia. Mas isso não desculpa por si só, que o regime ignore os Direitos Humanos. Que, no fundo, deviam ser a pedra angular de qualquer regime socialista.

João Nuno Mineiro


em: http://www.acomuna.net/content/view/345/1/

toda a clarividência...