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terça-feira, 22 de junho de 2010
quarta-feira, 16 de junho de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Jose Caroso Pires, "O Delfim"

José Cardoso Pires, com toda a sua complexidade e com toda a sua beleza é um caminho estranhamento rico e inovador na literatura Portuguesa, vale a pena descobri-lo...
«Só agora, dezoito horas catorze minutos, chegam os jornais da tarde, e faço votos que com notícias de bom tempo. Oxalá. Para honra e glória do melhor ganso da época, é indispensável que a criadita me traga um bom Diário de Lisboa ou um bom Diário Popular que não me falem de chuva nem vento forte e ainda menos de trovoada.
(…)
Estendo-me na cama a ler o jornal.
(…)
Este, em particular, vem exausto. Mensageiro maltratado mas convencido (em artigos de fundo e notas do dia) do seu Valiosíssimo Papel de Órgão de Informação nas Estruturas Nacionais, chegou à Gafeira muito composto de bom senso e com a autoridade de ter preenchido as vinte e quatro páginas que lhe competem. Chegou cansado; sem voz, pode dizer-se. Abre-se e pouco adianta, a não ser para os desconfiados leitores das entrelinhas. Mas, vá lá, mal ou bem sempre faz um prometedor boletim meteorológico. Esperemos que não falhe. Que, ao menos, não seja tão desastrado como certas previsões da NASA – lembro-me eu, deparando com a fotografia de Edwin Aldrin a sorrir a duas colunas na primeira página.
UM LAVRADOR FESTEJOU O NASCIMENTO DE UM FILHO VARÃO
Beja, 30 – Mais de 500 convidados festejaram no Monte de Santa Eulália, propriedade do Sr. Patrício Melchior, o nascimento do primeiro filho varão daquele lavrador.
Consumiram-se, entre outras iguarias, doze perus, vinte e quatro cabritos, quinze leitões, trinta e um frangos e cem quilos de borrego. Beberam-se cem litros de vinho, quatrocentas cervejas, duzentas garrafas de whisky…
… e isto, parecendo que não, é um desafio ao sorriso de Edwin Aldrin. Ri-te cosmonauta inacessível, das vitórias que se ganham cá em baixo, e não te espantes. Conheço, meã culpa, vários cidadãos de lavoura-e-cabaré capazes de pensar como o nosso lavrador e, aqui entre nós, nem reparo. Sei como é fundo neles, e constante, e magoado, o sonho de fazerem um homem à sua maneira, ensinando-lhe o mundo e mulheres. Desejo-lhes, portanto: Salute ed figli maschi – que é como brindam (diz-se) os napolitanos legítimos.
Edwin Aldrin encara-me: Com os seus lábios brancos de americano engarrafado em aço. Está cheio de guerra e de publicidade, mas é um cosmonauta – nunca esquecer. É um homem confiante nos milagres que os outros homens vão descobrindo porque se põem à prova neles, e nessa qualidade merecer tudo, quer se chame Edwin, Gagarine ou tenha o nome de código de Major Alfa Zero.
(…)
Um homem que confia, um cosmonauta, leva fios invisíveis de humanidade em esfuziante propulsão. Com ele viaja o nosso velho universo – com lábios assim tão gelados e com escafandros tão tenebrosos. Sinceramente. Falo com a mão na consciência, porque, modéstia à parte, muitos dos meus avós portugueses também foram bons cientistas de descobrir mundo. Excelentes, não exagero.
(…)
Outra vez o sorriso branco: Enquanto as moscas passeiam, o caminhante do espaço permanece suspenso na primeira página do meu jornal. Se lhe descrevessem as fabulosas aventuras dos portugueses que foram, antes dele, navegadores do impossível, talvez não acreditasse.
Também, pouco adiantaria que acreditasse ou não. Acenar com os padrões dos nossos descobridores como resposta às façanhas de um cosmonauta é o argumento dos olvidados, e já enjoa. Estamos fartos de ouvir nos discursos de academia e nas crónicas oficiais. Aldrin nunca teria tempo para isso. Anda excessivamente atarefado com o futuro para poder dar atenção aos desprezados dos século XX…»
sexta-feira, 16 de abril de 2010
...Fresco e riquíssimo.

""Aos quinze anos tive icterícia. A doença começou no Outono e acabou na Primavera. Quanto mais frio e escuro se tornava o ano velho, mais eu enfraquecia. Só melhorei com o novo ano. Janeiro foi um mês quente, e a minha mãe levou-me a cama para a varanda. Via o céu, o sol, as nuvens, e ouvia as crianças a brincarem no pátio. Em Fevereiro, num final de tarde, ouvi cantar um melro.
Vivíamos na Rua das Flores, no segundo andar de um grande prédio do começo do século. O meu primeiro passeio levou-me à Rua da Estação. Foi ali que, numa segunda-feira de Outubro, no caminho da escola para casa, vomitei. Havia já muitos dias que me sentia fraco, tão fraco como nunca antes na minha vida. Cada passo era um esforço. Quando subia escadas, na escola ou em casa, quase não me sustinha nas pernas. Também não me apetecia comer. Mesmo quando sentia fome e me sentava à mesa, depressa ficava com repugnância pela comida. De manhã acordava com a boca seca e com a sensação de que as minhas vísceras pesavam mais do que o costume e que estavam mal arrumadas dentro do corpo. Envergonhava-me de estar tão fraco. E envergonhei-me sobretudo quando vomitei. Também isso nunca me acontecera na vida. A boca encheu-se de vómito, tentei engolir, apertei os lábios com força e tapei a boca com a mão, mas aquilo jorrou através dos dedos. Depois apoiei-me à parede de uma casa, olhei o vomitado aos meus pés e saiu-me ainda uma aguadilha clara.
A mulher que me ajudou fê-lo de uma maneira quase brutal.
Agarrou-me o braço e conduziu-me pela – escura entrada do prédio para um pátio. Em cima havia estendais com roupas penduradas de janela a janela. No pátio havia madeira empilhada; numa oficina com a porta aberta chiava uma serra e voavam estilhas. Ao lado da porta do pátio havia uma torneira. A mulher abriu-a, lavou-me primeiro a mão e depois recolheu água na concha das mãos e atirou-a para o meu rosto. Enxuguei a cara com o lenço.
– Leva o outro! – Ao lado da torneira estavam dois baldes, ela agarrou num e encheu-o. Peguei no outro e enchi-o, e depois segui-a pela entrada. A mulher balançou muito os braços, a água caiu de chapa no passeio e arrastou o vomitado para o esgoto. Tirou-me o balde da mão e atirou outra chapada de água sobre o passeio.
Endireitou-se e viu que eu chorava. – Miúdo – disse, surpreendida –, miúdo. – Abraçou-me. Eu era pouco mais alto do que ela, senti os seus seios no meu peito, no aperto do abraço cheirei o meu mau hálito e o suor fresco dela e não soube o que fazer com os braços. Parei de chorar.
Perguntou-me onde morava, deixou os baldes na entrada e levou-me a casa. Corria ao meu lado, com a minha pasta da escola numa mão e a outra mão no meu braço. A Rua da Estação não é muito longe da Rua das Flores. Caminhava depressa, e com uma determinação que me tornou mais fácil acompanhá-la. Despediu-se diante da minha casa.
Naquele mesmo dia, a minha mãe chamou o médico, que me diagnosticou icterícia. Num momento qualquer falei daquela mulher à minha mãe. Não acredito que de outra maneira a tivesse visitado. Mas para a minha mãe era natural que, logo que eu pudesse, iria comprar com o meu dinheiro um ramo de flores, apresentar-me e agradecer-lhe. Por isso, num dia do final de Fevereiro dirigi-me à Rua da Estação.""
terça-feira, 23 de março de 2010
Poema em linha recta

(Com uma dedicatória muito especial artista...)
"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."
Álvaro de Campos
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Crítica literária às obras do concurso nacional de leitura

Sempre recusei classificar a obra de Pepetela como uma obra de desencanto, porque se é verdade que ele recria o desencanto da história, da guerra e da hipocrisia social em livros tão importantes da sua obra como A geração da utopia, também é verdade que a sua obra é desafiadora dos instintos humanos imaginando situações imprevisíveis prevendo de que forma o instinto humano age nessas situações. Essa característica é tão notável em obras como O quase fim do Mundo ou o Terrorista de Berkeley, Califórnia.
A Montanha da Água Lilás, parece-me que fica a meio termo. É uma história de desencanto, uma personificação do homem (com os lupis) e uma metaforização das acções (e reacções) dos lupis às acções dos homens. Nela é exaltado o lado negro do homem: a competitividade suja, a cegueira, a ignorância e a repressão de quem não se inclui no pensamento único. E, por outro lado, sugere uma situação imaginária (a descoberta da água lilás na montanha) prevendo as respostas que os instintos humanos dariam a essa possível situação. Termina de forma soberba: aprenderam eles com esta história? Escrita simples, acessível e um enredo aliciante. Pepetela oferece-nos uma deliciosa metáfora social neste livro impar na sua obra.

Sobre Inês de Portugal de João Aguiar, não tenho quase comentários a tecer. Lê-se bem embora nem a história, nem o enredo, nem as personagens, nem a escrita me tivessem cativado muito. Acho o enredo fraquíssimo porque a verdade é que o autor para completar a história e dar um pouco de conteúdo ao livro teve de criar enredos secundários que nada tinham a ver com o enredo principal. É uma tentativa imaginária de recomposição histórica que, na minha opinião, fica à quem das expectativas. Um livro que não traz nada de novo… Mas também, não perdi nada ao lê-lo
sábado, 16 de janeiro de 2010
A geração da Utopia

"A Geração da Utopia é o retrato desapiedado dos angolanos a quem ficou a dever-se a epopeia das lutas pela independência e da guerra civil que logo lhe sucedeu, das glórias e das sombras que marcaram esses longos anos de permanente conflito, e do descontentamento e da indiferença que insidiosamente se tornou o estigma de tantos desses homens e mulheres que fizeram, apesar de tudo, um país novo."
A Geração da utopia é, antes de mais, um livro de desencanto.
Sobre o autor: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pepetela
domingo, 10 de janeiro de 2010
Franz Kafka, "O Covil"

"N´O Covil, uma das poucas obras na primeira pessoa, uma toupeira constrói um emaranhado de túneis e armazéns de alimentos, criando assim um fortaleza que o protegia de todas as ameaças do exterior. Kakfa fantasiava com o local de trabalho perfeito, onde o silêncio reinava, desligado por completo do mundo. A comida era-lhe levada e ele teria apenas que se deslocar numa curta distancia para a conseguir, comendo-a logo de seguida antes que algum contacto humano o fizesse perder a concentração. Ele sempre gostou de se transformar em animais, sendo os seus favoritos os rastejantes ou que se escondessem com facilidade"
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Augusto Cury

"A maior aventura de um ser humano é viajar, e a maior viagem que alguém pode empreender é para dentro de si mesmo. E o modo mais emocionante de realizá-la é ler um livro, eois um livro revela que a vida é o maior de todos os livros, mas é pouco útil para quem não souber ler nas entrelinhas e descobrir o que as palavras não disseram..."
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