quinta-feira, 27 de maio de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Jose Caroso Pires, "O Delfim"

José Cardoso Pires, com toda a sua complexidade e com toda a sua beleza é um caminho estranhamento rico e inovador na literatura Portuguesa, vale a pena descobri-lo...
«Só agora, dezoito horas catorze minutos, chegam os jornais da tarde, e faço votos que com notícias de bom tempo. Oxalá. Para honra e glória do melhor ganso da época, é indispensável que a criadita me traga um bom Diário de Lisboa ou um bom Diário Popular que não me falem de chuva nem vento forte e ainda menos de trovoada.
(…)
Estendo-me na cama a ler o jornal.
(…)
Este, em particular, vem exausto. Mensageiro maltratado mas convencido (em artigos de fundo e notas do dia) do seu Valiosíssimo Papel de Órgão de Informação nas Estruturas Nacionais, chegou à Gafeira muito composto de bom senso e com a autoridade de ter preenchido as vinte e quatro páginas que lhe competem. Chegou cansado; sem voz, pode dizer-se. Abre-se e pouco adianta, a não ser para os desconfiados leitores das entrelinhas. Mas, vá lá, mal ou bem sempre faz um prometedor boletim meteorológico. Esperemos que não falhe. Que, ao menos, não seja tão desastrado como certas previsões da NASA – lembro-me eu, deparando com a fotografia de Edwin Aldrin a sorrir a duas colunas na primeira página.
UM LAVRADOR FESTEJOU O NASCIMENTO DE UM FILHO VARÃO
Beja, 30 – Mais de 500 convidados festejaram no Monte de Santa Eulália, propriedade do Sr. Patrício Melchior, o nascimento do primeiro filho varão daquele lavrador.
Consumiram-se, entre outras iguarias, doze perus, vinte e quatro cabritos, quinze leitões, trinta e um frangos e cem quilos de borrego. Beberam-se cem litros de vinho, quatrocentas cervejas, duzentas garrafas de whisky…
… e isto, parecendo que não, é um desafio ao sorriso de Edwin Aldrin. Ri-te cosmonauta inacessível, das vitórias que se ganham cá em baixo, e não te espantes. Conheço, meã culpa, vários cidadãos de lavoura-e-cabaré capazes de pensar como o nosso lavrador e, aqui entre nós, nem reparo. Sei como é fundo neles, e constante, e magoado, o sonho de fazerem um homem à sua maneira, ensinando-lhe o mundo e mulheres. Desejo-lhes, portanto: Salute ed figli maschi – que é como brindam (diz-se) os napolitanos legítimos.
Edwin Aldrin encara-me: Com os seus lábios brancos de americano engarrafado em aço. Está cheio de guerra e de publicidade, mas é um cosmonauta – nunca esquecer. É um homem confiante nos milagres que os outros homens vão descobrindo porque se põem à prova neles, e nessa qualidade merecer tudo, quer se chame Edwin, Gagarine ou tenha o nome de código de Major Alfa Zero.
(…)
Um homem que confia, um cosmonauta, leva fios invisíveis de humanidade em esfuziante propulsão. Com ele viaja o nosso velho universo – com lábios assim tão gelados e com escafandros tão tenebrosos. Sinceramente. Falo com a mão na consciência, porque, modéstia à parte, muitos dos meus avós portugueses também foram bons cientistas de descobrir mundo. Excelentes, não exagero.
(…)
Outra vez o sorriso branco: Enquanto as moscas passeiam, o caminhante do espaço permanece suspenso na primeira página do meu jornal. Se lhe descrevessem as fabulosas aventuras dos portugueses que foram, antes dele, navegadores do impossível, talvez não acreditasse.
Também, pouco adiantaria que acreditasse ou não. Acenar com os padrões dos nossos descobridores como resposta às façanhas de um cosmonauta é o argumento dos olvidados, e já enjoa. Estamos fartos de ouvir nos discursos de academia e nas crónicas oficiais. Aldrin nunca teria tempo para isso. Anda excessivamente atarefado com o futuro para poder dar atenção aos desprezados dos século XX…»
quinta-feira, 13 de maio de 2010
é sempre a mesma história que nos contam !!

O capitalismo está constantemente em reconversão: inova, transforma-se, encontra formas de se autolegitimar. E por muito que os discursos politicamente correctos nos venham falar de inevitabilidade não há escapatória: o problema de Portugal, da Europa e do Mundo é um problema ideológico. É um problema de sistema, de organização, de valores. Mais de dois mil anos de hegemonia de um modelo de dualismo social e de exploração (que na verdade nunca ninguém ousou quebrar) nunca oferecerem nada de realmente importante ao Mundo. E não nos desenganemos, porque o problema do PEC e da ditadura do défice é um problema estrutural, meramente estrutural. É um problema ideologicamente estrutural. Com a crise financeira o discurso liberalizador faliu e deu origem ao discurso regulador e moderador (também presente no discurso social cristão e social democrata do pós guerra). Para salvar o sistema os estados meterem rios de dinheiro nos mercados e nos bancos. E agora tapar esses buracos de salvação e os que já existiam criam-se os PECS e a ditadura de mercado. Em Portugal pagaremos (nós os mesmos de sempre) a factura dessa cangalhada elitista que destrói o país, o Mundo e que tem as costas quentes – o modelo neoliberal:
- Aumento para 21% da taxa do IVA.
- Aumento da taxa intermédia para 13 %.
- Aumento da taxa reduzida (a de bens essenciais e alimentares) para 6 %.
- Aumento de 1 % sobre os rendimentos.
- Congelamento salarial.
- Cortes nos subsídios sociais – subsidio de desemprego e RSI.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
...Fresco e riquíssimo.

""Aos quinze anos tive icterícia. A doença começou no Outono e acabou na Primavera. Quanto mais frio e escuro se tornava o ano velho, mais eu enfraquecia. Só melhorei com o novo ano. Janeiro foi um mês quente, e a minha mãe levou-me a cama para a varanda. Via o céu, o sol, as nuvens, e ouvia as crianças a brincarem no pátio. Em Fevereiro, num final de tarde, ouvi cantar um melro.
Vivíamos na Rua das Flores, no segundo andar de um grande prédio do começo do século. O meu primeiro passeio levou-me à Rua da Estação. Foi ali que, numa segunda-feira de Outubro, no caminho da escola para casa, vomitei. Havia já muitos dias que me sentia fraco, tão fraco como nunca antes na minha vida. Cada passo era um esforço. Quando subia escadas, na escola ou em casa, quase não me sustinha nas pernas. Também não me apetecia comer. Mesmo quando sentia fome e me sentava à mesa, depressa ficava com repugnância pela comida. De manhã acordava com a boca seca e com a sensação de que as minhas vísceras pesavam mais do que o costume e que estavam mal arrumadas dentro do corpo. Envergonhava-me de estar tão fraco. E envergonhei-me sobretudo quando vomitei. Também isso nunca me acontecera na vida. A boca encheu-se de vómito, tentei engolir, apertei os lábios com força e tapei a boca com a mão, mas aquilo jorrou através dos dedos. Depois apoiei-me à parede de uma casa, olhei o vomitado aos meus pés e saiu-me ainda uma aguadilha clara.
A mulher que me ajudou fê-lo de uma maneira quase brutal.
Agarrou-me o braço e conduziu-me pela – escura entrada do prédio para um pátio. Em cima havia estendais com roupas penduradas de janela a janela. No pátio havia madeira empilhada; numa oficina com a porta aberta chiava uma serra e voavam estilhas. Ao lado da porta do pátio havia uma torneira. A mulher abriu-a, lavou-me primeiro a mão e depois recolheu água na concha das mãos e atirou-a para o meu rosto. Enxuguei a cara com o lenço.
– Leva o outro! – Ao lado da torneira estavam dois baldes, ela agarrou num e encheu-o. Peguei no outro e enchi-o, e depois segui-a pela entrada. A mulher balançou muito os braços, a água caiu de chapa no passeio e arrastou o vomitado para o esgoto. Tirou-me o balde da mão e atirou outra chapada de água sobre o passeio.
Endireitou-se e viu que eu chorava. – Miúdo – disse, surpreendida –, miúdo. – Abraçou-me. Eu era pouco mais alto do que ela, senti os seus seios no meu peito, no aperto do abraço cheirei o meu mau hálito e o suor fresco dela e não soube o que fazer com os braços. Parei de chorar.
Perguntou-me onde morava, deixou os baldes na entrada e levou-me a casa. Corria ao meu lado, com a minha pasta da escola numa mão e a outra mão no meu braço. A Rua da Estação não é muito longe da Rua das Flores. Caminhava depressa, e com uma determinação que me tornou mais fácil acompanhá-la. Despediu-se diante da minha casa.
Naquele mesmo dia, a minha mãe chamou o médico, que me diagnosticou icterícia. Num momento qualquer falei daquela mulher à minha mãe. Não acredito que de outra maneira a tivesse visitado. Mas para a minha mãe era natural que, logo que eu pudesse, iria comprar com o meu dinheiro um ramo de flores, apresentar-me e agradecer-lhe. Por isso, num dia do final de Fevereiro dirigi-me à Rua da Estação.""
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Insustentavelmente…
Por vez custa-nos no meio da desgraça pensar em responsáveis e responsabilidades. Mas sem a precisão dessa análise apenas estamos a dar frutos à inércia, à irresponsabilidade e não tirar conclusões que nos permitem atenuar novas desgraças, quiçá impedi-las. A catástrofe ambiental e social que neste momento atravessa o Brasil não pode passar em claro e merece uma reflexão. É certo que ninguém controla o clima, podemos agravá-lo ou tentar “normaliza-lo” mas a sua força é incontrolável.Porém parece-me que os mais de uma centena de mortos no Brasil não são meramente fruto das fortes chuvadas… A esmagadora maioria das mortes são de favelas, das consideradas áreas de risco, onde o planeamento não existe, as construções são precárias e favorecem a acumulação das águas. A agravar a isto seguem-se os desmoronamentos.
Não seriam muitas destas mortes evitáveis com outro tipo de planeamento urbanístico e com outro tipo de políticas sociais? As mortes de todos estes pobres nas favelas são a consequência de um segregacionismo isolacionista que condena populações a condições de vida miseráveis em ambientes desestruturados que potenciam cheias e outros tipos de catástrofes.
A outra análise que me parece pertinente é a ineficácia deste modelo de globalização. Se a globalização fosse social, a resposta a catástrofes ambientais deste tipo seriam globais. Não seriam, como agora, meras migalhas para os estados ficarem bem na fotografia mas seriam respostas sérias. É impossível prever este tipo de situações, e uma globalização solidária passaria por os estados assumirem uma responsabilidade global e colectiva de resposta às catástrofes ambientais dos estados, dinamizando esforços reais e sérios.
Mas a globalização económica e resolver catástrofes naturais não é assim tão lucrativo.
Será comparável o dinheiro que os estados colocam no Brasil quando encontram uma oportunidade de mercado, com o dinheiro que colocam quando centenas morrem em catástrofes ambientais?
O neoliberalismo não responde às pessoas !
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Inversão de prioridade...

Lê-se no Público que os Estados Unidos um ano depois já não ajudam a economia. Afinal toda a pompa e circunstância da Cimeira de Londres foi mero ShowOff, com Obama a aparecer como uma mera imagem de marketing, que apesar de renovada não esconde a sua verdadeira face.
A verdade é que a cimeira do G20 só foi isso: imagem de marketing.
Os mais distraídos pensariam que tínhamos voltado ao Keynesianismo e às políticas “Roosveltianas”, mas não... Um ano após a cimeira do G20 a prioridade já não é a economia, já não são os bancos, a regulação, a injecção de dinheiro, ou o (falso) combate ao desemprego; a prioridade agora são as contas públicas e os défices.
Enquanto as prioridades mudavam impulsionadas pelos lobbies que usaram a cimeiro do G20 como uma máscara, o Mundo assistiu a consecutivos ataques aos direitos das pessoas. O desemprego prolifera, a precariedade generaliza-se, as privatizações surgem com a “solução possível”, os pobres são criminalizados, os apoios sociais reduzidos, os salários congelados, e até se pensa em negar ajuda a um país da zona euro.
Por muitos combates e vitórias que tenhamos tido a burguesia está sempre um passo à frente. Conseguiu em tempos de crise financeira e desconfiança no sistema capitalista refortalecer-se e ganhar um novo fôlego… Resistiremos, não sairá vitoriosa!!!
Razão tinham os milhares que ficaram à porta da cimeira...
João Mineiro
em, adeuslenine.blogspot.com
terça-feira, 23 de março de 2010
Poema em linha recta

(Com uma dedicatória muito especial artista...)
"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."
Álvaro de Campos
quarta-feira, 17 de março de 2010
Socialismo e Direitos Humanos

Quando Marx olhou a sociedade e pensou uma forma de organização política, económica e social alternativa, fê-lo porque constatou que o homem vivia na miséria, fruto da exploração e da opressão a que o capitalismo o submetia. Essa preocupação humana foi condição essencial do seu pensamento, e a esquerda anti-capitalista moderna, não pode aceitar que em nome do socialismo se pratiquem verdadeiros atentados aos Direitos Humanos. Isso é paradoxal, porque socialismo e Direitos Humanos são conceitos quase siameses.
Cuba, um dos poucos Estados que ainda tem a ousadia de se auto-caracterizar socialista, faz uso de uma retórica anti-guerra, anti-imperialismo e pelos Direitos Humanos. Advoga toda essa malha discursiva com a teoria anti-império (legitima por si só, mas não legitimadora de tudo). A Esquerda anti-capitalista tem de perceber que existem precedentes, que para lá de um discurso floreado existe toda uma organização política que se afastou no ideário humanista que Marx protagonizou.
Em Cuba não existe liberdade de expressão, de associação e de crítica. É um facto incontornável. Em pleno século XXI, é inconcebível que um Estado se caracterize de Socialista e utilize os seus órgãos repressivos para prender e deter quem pensa de maneira diferente. O império faz isso com a teoria “pensamento único” de forma encapotada, e também ai a Esquerda tem uma palavra a dizer e um ponto de exclamação a acrescentar. Porque superioridade da Esquerda mede-se pelos seus valores.
Um partido de esquerda socialista tem de olhar para os cerca de duzentos presos políticos, para a morte de Tamayo (e a repressão pós morte), para a repressão sobre os movimentos feministas, para os desaparecimentos (presumivelmente mortes) dos líderes de oposição, para o exílio de Cubanos críticos, e para os milhares que morrem na travessia, e perceber que esse é um caminho por onde não queremos ir.
Sem direitos humanos não há alternativa socialista. Quando há uns tempos li o “Conta-me coisas de Cuba”, de Jesus Diaz percebi que a questão Cubana era mais complexa do que se pensa. O autor não é propriamente de fiar, mas a análise é séria. A história da personagem que ele cria podia ser a história de qualquer Cubano, oprimido no seu país que acabou perdido no mar entre dois países e duas realidades concepcionais…
É verdade que Cuba é segregada e que o seu povo é brutalmente desrespeitado. Que existe uma ofensiva brutal sobre a sua economia. Mas isso não desculpa por si só, que o regime ignore os Direitos Humanos. Que, no fundo, deviam ser a pedra angular de qualquer regime socialista.
João Nuno Mineiro
em: http://www.acomuna.net/content/view/345/1/
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
A representação do lucro acima dos homens...

O boicote encapotado que os governos e a imprensa fazem ao Fórum Social Mundial, em oposição a um feedback brutal sobre o Fórum Económico Mundial é sintomático de uma lógica “mercantilizante” que, infelizmente, se foi enraizando. Essa lógica interessa à burguesia e aos neoliberais, daí que a rejeição e o desinteresse em relação ao Fórum Social Mundial seja notório e que as tentativas de silenciamento e boicote se reafirmem nestes tempos de recomposição do neoliberalismo. É importante perceber porque é que afinal de contas os governos, a burguesia e a imprensa ignoram os apelos do Fórum e se negam a ouvi-lo…
Boaventura Sousa Santos na sua crónica desta semana na “Visão” faz uma análise interessantíssima ao desprezo sobre o Fórum Social Mundial. Acabou de se realizar em Porto Alegre um seminário de avaliação do papel do Fórum no pensamento e na acção social destes últimos dez anos, ao mesmo tempo que se promoviam acções descentralizadas do Fórum numa série de outros países. Quantas notícias nos chegaram sobre estes encontros? Praticamente nenhumas. E quantas nos chegaram do Fórum Económico Mundial? Imensas. Lógico. Interessa à burguesia calar o Fórum Social, afinal de contas ele previu a crise e os seus efeitos gravíssimos na vida de milhões de pessoas. Advertiu sempre, desde a sua carta fundadora para os perigos da desregularão, do neoliberalismo e da teoria do pensamento único. Percebe-se a aversão dos governos e da burguesia ao Fórum Social Mundial quando se lê os seus pilares base: “O FSM é um espaço de debate democrático de ideias, aprofundamento da reflexão, formulação de propostas, troca de experiências e articulação de movimentos sociais, redes, ONGs e outras organizações da sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo”. Como sabemos o neoliberalismo é adverso a uma verdadeira democracia, é adverso ao pensamento, ao debate, à reflexão, e a todo o tipo de teorias que digam que acima do dinheiro está o homem, e acima da guerra está a paz.
Por outro lado, percebe-se o casamento perfeito entre a burguesia, os seus governos e o Fórum Económico Mundial. Em 2001, como Boaventura escreve, as análises do FEM eram as de que as privatizações, o livre comércio e a desregulamentação económica e financeira eram a solução possível e definitiva e a única forma de combater as crises cíclicas do capitalismo. Definitiva até 2008, claro! Crise que aliás o FEM não previu… e o FSM previu. O FSM sempre afirmou que o neoliberalismo não era a única solução, que era a socialmente mais injusta.
As conclusões e deduções que faço, é que a imprensa e os governos preferem ouvir quem defendeu um modelo absoluto que levou à crise em que nos encontramos do que ouvir aqueles que são mais afectados por essa crise e por toda a barbárie que ela representa. O que se prova é que se preferem defender quem mais responsabilidade tem na catástrofe social que o mundo vive, do que ouvir os movimentos de todos os sofredores dessa catástrofe.
Talvez seja fundamentada a afirmação de que o capitalismo controla tudo e todos e exerce uma pressão brutal sobre todos os domínios da vida. Em vez de um controlo do tipo Orwelliano, é um controlo inconsciente, feito de pressões, de interferências encapotadas na vida das pessoas, e sobretudo de instituições sociais (do ponto de vista psicológico) que, habilmente, foi incutindo às sociedades.
Este ano o Fórum Social Mundial reafirma como primeiro grande tema, a paz e a democracia e para citar a actualidade das suas reflexões cito o artigo do Boaventura Sousa Santos (elucidativo ao ponto de não precisar de explicação): “As análises do FSM apontam para o recrudescimento da militarização dos conflitos sociais, incluindo a criminalização dos movimentos sociais e dos protestos dos cidadãos ante o agravamento da crise económica e das desigualdades, e o ressentimento que ele provoca, já que as suas vítimas são sempre os moralmente mais honestos, os socialmente mais vulneráveis e os politicamente menos poderosos, uma tríplice condição sobreposta nos ombros da maioria da população mundial.”
Artigo publicado em:
http://www.acomuna.net/content/view/333/1/
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
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